Mesmo com as mulheres futebolistas encontrando cada vez mais o seu lugar num mundo masculino e que está se transformando e deixando para trás comportamentos mais conservadores, a história que permeia esse universo ainda é de dor e invisibilidade.

O futebol feminino é muito antigo

Segundo artigo de Andréa Karl Fernandes e publicado pelo Sindicato dos Treinadores Profissionais de Futebol do Estado do Rio de Janeiro, o primeiro contacto das mulheres com o desporto foi no século XII, com camponesas francesas, que lutou por uma bola de couro.

Os britânicos dominaram

Em 1894 foi formada a primeira seleção feminina de futebol do mundo, a British Ladies, que atraiu cerca de dez mil espetadores quando foi inaugurada. Em entrevista concedida na época e repetida pelo Lifetime, a afiliada do History Channel, Nettie Honeyball, idealizadora do projeto, chegou a dizer: “Comecei o clube visando provar ao mundo que mulher não é tão decorativa e criaturas inúteis que os homens pintaram”.

A proibição também se aplicava ao exterior

Em 1921, apesar do sucesso das meninas em todo o país, a Associação Inglesa de Futebol decretou que nenhum dos seus clubes poderia permitir que equipas femininos usassem os seus campos. Essa proibição teve impacto no cenário futebolístico, como aponta Andréa Karl Fernandes, e vigorou por cinquenta anos.

Futebol era coisa de homem, branco e rico. Sem Exceções

Inicialmente, esse desporto só podia ser praticado por homens pertencentes à elite, como filhos de aristocratas e descendentes de europeus. Os negros não eram permitidos e costumavam usar pó facial para jogar. Então pode imaginar como foi a receção quando as mulheres quiseram integrar o mesmo espaço.

A década de 1920 foi decisiva

Em 1921, a primeira partida de futebol feminino no Brasil foi disputada pelas equipas Senhoras Catarinenses e Tremembeenses. No entanto, em artigo de Mariane da Silva Pisani, essas mulheres foram chamadas ousadas, destemidas e motivo de chacota.

O exercício prejudicaria a fertilidade

No seu livro Sobre a Educação Física, de 1920, o sociólogo Fernando de Azevedo chegou a relatar que a violência dos jogos e o excesso de exercícios tornavam o corpo áspero e desenvolviam ossos e músculos. Além disso, para ele, isso afetaria a maternidade, fazendo com que as mamas e o útero aumentassem, podendo levar à infertilidade.

As mulheres rebaixaram a classe dos atletas

O historiador francês Pierre de Coubertin explicou na Revista Educação Physica de 1938 que a inclusão das mulheres nos desportos competitivos, especialmente nos Jogos Olímpicos, poderia banalizar esse ambiente de honras e conquistas. Segundo o autor, eles corromperam o desporto e ninguém aprenderia nada os vendo em ação.

O futebol feminino já foi crime

Em 1941, o general Newton Cavalcanti solicitou ao Conselho Nacional de desportos uma série de subsídios para que as mulheres fossem proibidas de jogar futebol, alegando ser contra as mulheres e que o estado deveria fazer o seu para proteger a integridade, pois um golpe no útero pode tornar as mulheres inférteis e isso é uma questão de saúde pública.

Esse decreto estava contido na Lei 3.199 e ficou ainda pior com a chegada da ditadura em 1965 ao apertar o cerco com a Consideração n.º 7 que proibiu a prática em outros segmentos como futsal e futebol de praia. A decisão só foi revertida em 1981.

O primeiro Mundial Feminino

Dez anos após a liberação do futebol no Brasil, em 1991 aconteceu a primeira edição da Copa do Mundo Feminina. O evento foi realizado na China e concorreu aos prémios Bola de Ouro, Chuteira de Ouro e Fair Play, além do masculino. O vencedor da competição foi os Estados Unidos.

Censura ainda é novidade

A lista de curiosidades do futebol feminino ficou completa. Em 2001, a Associação Paulista de Futebol exigia que, para competir, a atleta tivesse características femininas, como cabelo comprido e corpo pequeno.
Segundo o livro Sem Deficiência: O Coração Aberto da Mulher Quem usa chuteira no Brasil, isso aconteceu porque os dirigentes prometeram ao público que seria um belo campeonato para atrair espetadores.

Também foi prescrito que os uniformes deveriam ser curtos e atletas acima de 23 anos e aqueles com cabelo rapado ou curto foram banidos.

Uma luta que continua até hoje

O futebol sempre foi um campo masculino. E no Brasil, onde esse desporto está integrado à identidade nacional, a situação é ainda mais grave.

Historicamente, o lugar feminino nesse segmento era apenas para ocupar a cadeira de torcedores e quando muitas tentaram ocupar o seu lugar, eles foram acusados ​​de querer adotar uma atitude masculina ou até mesmo de perder a beleza, de iniciar a contraceção e, principalmente, de perder a feminilidade.

Apesar de serem acusadas de infratoras, elas estiveram presentes e aceitaram o desafio, indo além de jogadoras para se tornarem árbitros, comentaristas, treinadoras e tudo o que quisessem ser, como é direito de toda mulher e como deveria ser. Desde o início.

Mesmo depois de 28 anos desde a primeira Copa do Mundo Feminina, esta é a primeira vez que uma competição deste tipo é vista na televisão e este é apenas o primeiro passo em tudo onde esta categoria merece ser conquistado.

Que a simbologia desse brinquedo, muitas vezes considerado masculino, seja o reflexo de uma sociedade que ainda pensa em pleno século XXI que o futebol não é para mulheres.

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